sábado, 18 de dezembro de 2010

Chopin

Por sentir sede eu me convenci.
Imaginei o bebedouro de perto, tão perto que o simples imaginar já suavizava minha garganta. Por alguns segundos isso foi o suficiente para me manter na cama. Depois o sonho me despertou. Sim, entenda: o sonho me despertou.
Queria sonhar sem fechar os olhos, melhor, sem palavras imagens portas direções, mas o éter também tem lá sua existência. E se eu pensar que nunca haverá saída, é melhor desistir de vez de todo tipo de arte, car, como afirmo, não há saída. Fazer por diversão? Perdoe-me, mas o consumismo só torna o meu desejo mais repugnante, cada vez mais distante do que sou. Não quero ficar à mercê de balanços comerciais de cada semana então me diga rápido como hei de encontrar o inexistente antes que ele se forme na minha mente. Preservá-lo no coração é meu elixir? Mas meu coração não é uma bomba irracional; há mais cogito nas minhas sístoles do que nas minhas sinapses.
Cortázar disse uma vez que propor uma pergunta não a empobrece. No momento eu senti um alívio – o mesmo quando afirmo que estou a chegar mais perto do bebedouro – mas depois senti a fome, ou o que quis chamar assim. Todo o desespero controlado, minha paz pronunciada, tudo t u d o será minha eterna inquietação, como o céu de miosótis que vejo agora da janela. Não haver saída, haver linguagem ( ) às vezes me encolerizam, retorcem minhas cordas vocais e voilà le silence. De uma forma ou de outra é como me sinto livre. Afinal de contas, gritamos, primeiro, para romper a casca da cigarra que invariavelmente somos. Todas as causas são causas primeiras do eu, para o eu. Não acredito (e perdoe-me se achares muito radical) no grito oco dos revolucionários politizados que dizem apenas pensar no povo, na causa, enfim , no maldito slogan. Desleal é não sentir a dor. Falo apenas para projetar uma idéia mais clara de mim, e projeto no papel, na parede, merda, projeto no otejorp. O imperceptível é o que me guarda. “O que tu enxergas, tu não enxergas”. Então uma vez mais me condeno a não ter saída, a não sair de mim. Só o que me resta é ser o que sou.
(mas a garganta ainda está seca; hora de levantar)
Prefiro pássaros a cachorros.

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