sábado, 11 de dezembro de 2010

Primeira página

Comprei um caderno outro dia e o primeiro texto que escrevi segue logo abaixo. Eu não sei o que dizer sobre esse texto, ainda estou tentando descobrir.



Eu ia colocar uma citação de Clarice Lispector, ou as observações tão sensíveis de Marcio Souza. E talvez eu as coloque quando o ponto final renascer. Mas, no fundo, não é preciso. Cito não apenas essas duas almas na minha escrita, chego a crer que todos os escritores que já li ficam a me espreitar do outro lado da folha, quem sabe cochichando para que, enfim, o ponto final desabroche naturalmente de mim. E não apenas os escritores... Todas as pessoas. Mas não me iludo, sei que o suposto silêncio que eles – sempre o outro – fazem é tão audível que me põe a escrever como se houvesse na minha cabeça uma arma, e ‘eles’ me obrigassem a libertar o que chamo humildemente de eu. Seja o que for, minha mão se sente segura pela primeira vez em muitos anos. Aos poucos eu respiro e ouso olhar de soslaio a metade do copo. E paro, olho de novo, quase um ato de rebeldia. Encontro-me, agora, inaudível: não consigo dizer se o copo está metade cheio ou vazio. Acreditava que a superfície se chamava Deus.

Há tantos outros mistérios que aos poucos me permito ver (sentir). É difícil separar o olho do sentimento. Mas o que é a emoção, alors? Minha boca. Minha língua frenética cheia de rédeas óticas, caleidoscópicas, e nunca sei com a força de uma sentença se estou a puxar muito. Meus ouvidos são promíscuos. A culpa é minha por escolher dobrar em esquinas que me levam inevitavelmente ao Moulin Rouge.

Então o jeito é se educar, acreditar por um tempo que o mundo todo pode ser compreendido seguindo uma fila indiana, aceitar minha senha e esperar que algo, quem, quando, e não é a morte. Ah, a Morte... Queres mesmo saber...? Morte é beber o copo d’água e, depois de esvaziá-lo, sentir-se feliz.

Peço solenemente que duvide de mim. Peço, sobretudo, que me permita a doçura da ausência, e não me cobre por isso. Estou aqui nas minhas palavras, minha música e todos os desenhos cheios de olhos que me perscrutam. Quem me entende, sabe não procurar além do co(r)po. Meus lábios beijam Deus, minha profunda superfície, e fazem reverências à morte, a senhora do fundo do copo que me permite fechar os olhos com imensa cumplicidade.

Quebro o copo

’ ‘

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3 comentários:

  1. Doce Ausência me responda:
    Por os cachorros se entregam aos pés dos homens?
    Seriam eles carentes?
    Não é a companhia que define um homem...
    E sim a falta dela.
    Não permita doce ausência cair em teus pecados:
    Cólera, pessimismo do possível.
    Serei fácil escravizado
    Ausência não alimenta a saudade
    Corrói a mente, expõe muito alem do que se gosta
    Libera a maldade
    Nossa doce ausência! Não quebrais o cativo
    (...)

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  2. í vigia ele mulher são apenas rabiscos em um caderno

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