quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Última Porta

Não vejo o Caos com o desespero comum. Ele me vê com serenidade e indiferença – ar até de superioridade, mas cheio de amor. Nada arrogante. Fora de mim, observador, analisa-me por dentro, sendo eu. É quando aparentemente me perco, talvez por não saber o que está acontecendo comigo...essa nova euforia, incompreensão. Mas é quando fico fascinada com as portas desconhecidas – agora abertas, por instantes, mudas, sábias -, que eu sou. Lembra-me a minha infância. Corri com uma alegria sem pudor, abria as portas dos quartos de casa apenas para assustar, para ser ouvida, para dizer que existia. O susto alheio me alegrava por eriçar meus pêlos com a certeza, não, não é certeza, mas felicidade momentânea– estou viva. Só que no fundo, no fundo, não é o corredor com 11 portas que fazia meu coração sorrir, pois um dia o Susto acabaria por reconhecer meu rosto, daria um bom-dia, quem sabe um chá, Sente-se. Não é a Felicidade, a Procura, nenhuma das senhoras que vi passar cambaleantes, apoiando-se nas paredes de cal e me perguntando de forma grosseira, Que horas tu vais partir. Eu não sabia, é claro, fiquei envergonhada; como sempre dei aquele sorriso de canto, cortês, olhos cansados. Qualquer um notaria minha entropia, foi então que uma jovem sensual invadiu meu silêncio,Queres sentar, Sim, obrigada, és muito gentil, como te chamas, Morte.

08/09/2009

Um comentário:

  1. Engraçado, eu estava lendo esse texto um dia desses e pensando em como ele me lembra muito uma mulher aí que eu amo, a Clarice (,a não ser pelo final, o final é teu e só teu). E o que, da primeira vez em que li, soou triste e, da segunda, real, agora parece um sorriso. Bonito, Lívia, sem dúvidas, muito bonito.

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