segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Memória da nudez I

Tem horas que olho para as imagens e fico me debatendo como elas não atingiram o que eu vi, como não consegui passar o que me capturou no momento. Nessas horas, a simplicidade: “nunca disse que tiraria boas fotos”. Não sei quando comecei a pensar nisso. Esse pensamento traz uma liberdade muito grande. Não tiro minha responsabilidade, ou melhor: responsabilidade também não há.

Constantemente me pego pensando na vida e é tão forte a sensação de ter nascido ontem.
Quando tinha uns oito anos, comecei a fazer uma brincadeira comigo que até hoje me acompanha.

Deitava na cama, deixava o corpo relaxar, respirava fundo. Quando me sentia leve, fechava os olhos por uns cinco minutos. Nesses cincos minutos, gostava de pensar que não sabia em que mundo estava, não sabia em que casa morava, não reconheceria meus pais, meu nome, meu corpo. Não teria sido me dado um idioma ainda. Recuperaria o movimento dos braços à medida que abrisse os olhos lentamente.

 Quando os cinco minutos terminavam, tinha uma única instrução: olhar devagar ao redor; mas nome nenhum daria para as coisas.

Quando abri os olhos, olhei para meu corpo nu, sem saber que era corpo, sem saber que estava nu.

Olhei para os lados, vi o piano. Olhei para o outro, vi os brinquedos. Mas palavra nenhuma se passava em minha mente, tudo era uma imagem amorfa que eu teria que buscar o significado. Como? Talvez entrando em contato, sentindo a textura, lambendo, quebrando, engolindo...

Aos poucos, minha memória voltava ao plano presente. Ia me lembrando como quem contasse uma história e de-repente-a tempo do desfecho final se lembrasse do segredo antes esquecido.

Vou acordando, me sentindo, me reconhecendo como pele, como homem? Como mulher? Menina? Pessoa? Ainda não sei. Muito avançado.

Reconheço que o corpo é jovem, poucos pelos, poucos peitos. Reconheço que sei pouco sobre o que me cerca, mesmo já rememorando. A figura do astronauta colada na parede acena para mim. Quantos mistérios a nudez do universo carregava? O astronauta quando pousasse na Terra estaria nu?

Minha nudez é passageira, começo a sentir vergonha. Ponho uma roupa, sinto sede. Vou buscar água, é um imperativo, mas não a entendo. Desejava que meu corpo fosse nu para entender porque precisava tanto dela, mas minhas veias sempre foram difíceis de ver.


Volto para o que conheço, meu pai me chama. Olho para ele ainda perplexa, ainda reconhecendo. O cachorro late mais forte, as crianças da rua chamam o nome que é meu. Ponho meias, vou desbrincar de gente, lembrando a hora de voltar, de me esquecer novamente como num confidente jogo de esconde esconde de sombras, sussuros, imagens.

Um comentário:

  1. "O meu olhar é nítido como um girassol.
    Tenho o costume de andar pelas estradas
    Olhando para a direita e para a esquerda,
    E de vez em quando olhando para trás...
    E o que vejo a cada momento
    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
    E eu sei dar por isso muito bem...
    Sei ter o pasmo essencial
    Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascido a cada momento
    Para a eterna novidade do Mundo..."

    Pessoa como Caeiro

    Li isso hoje e lembrei do teu texto. :)
    Beijo da caramelo.

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