domingo, 23 de junho de 2013

Uma história sem fim

"Em vez de serem apenas bons, esforcem-se para criar um estado de coisas que torne possível a bondade." 
Bertolt Brecht

Ontem fez uma noite linda, vocês notaram? Nunca vi uma luz tão brilhante. Saí do computador (é, parece que estamos cada vez mais a nos perder dentro dele) e fui ver a super lua no quarto-ateliê. desliguei a luz, fechei a porta e me deitei olhando pra Lua e as pequenas estrelas ao seu redor. 
Diante de tanta luz, vi que era isso que me parecia importante. Não que o nosso mundo aqui não tenha problemas reais, dores sangrentas, muito rancor, um estado constante de inadimplência com o amor. Mas olhando pra Lua eu senti dentro de mim pelo o que eu deveria lutar, o que deve me motivar todos os dias quando estudo, quando ando, quando existo. Ao que vale a pena me firmar nessa efêmera vida. 
Desde muito cedo não consigo me acostumar ao ver tantas pessoas em condições desumanas nas ruas. Pessoas doentes, pobres, esquecidas. Nunca entendi porque nos esquecemos de olhar para elas. No início pensava que era por medo - a pessoa vem na sua direção e lhe pede uma moeda, quando você não pensa que ela vai lhe assaltar. Hoje sinto que é também um pouco de vergonha por permitir que essa situação aconteça. Permitir que ela tenha um véu de naturalidade que nos autoriza e nos perdoa de agir. Que nos impeça de qualquer envolvimento real para reverter essa situação. E então não vemos. Escolhemos não ver naturalmente e vamos construindo ao longo tempo violências cotidianas, institucionais e estéticas.
É urgente recuperar o sentido da falta, já que o excesso, o desperdício e o consumismo parecem ter-nos roubado o vazio que só os sonhos poderiam ocupar. Sobretudo a falta do olhar. Olhar dói, entende? Quando me perguntam se sou fotógrafa, recolho-me humildemente e digo: "estou fotógrafa". Não é só por falta de um embasamento mais técnico; é que o olhar significa. O conhecimento e a consciência carregam consigo responsabilidades de ação e de envolvimento. Quando vejo, sinto. E quando sinto, ajo. Por isso ando devagar, é não é por não ter pressa.


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