quinta-feira, 24 de junho de 2010

Estrelinhas


Olhos ardendo. Olhos inchados. Olhos com sono. Meus amigos, eu não sei o que é esse... Esse. Um semblante calmo e melancólico, bonito. Ela dizia “eu to cansada... muito cansada, eu to, to cansada, muito cansada...” e ficou a repetir essas palavras ininterruptamente. Debaixo do chuveiro, tudo é lágrima. Seus seios lindos e aquela garganta presa, seca, com vontade de esbravejar. “Ninguém me entende...” e ela dizia tudo de um jeito tão calmo e sensato que me deu aquela coisa de chorar. Suas mãos – galhos secos - cortavam o vento. Tentou respirar fundo: dormiu.

Ao acordar, seus olhos já não a denunciavam. O vizinho me disse “mas olha a cara triste dela!” - meu velho, ela é triste, não adianta. Foi ouvir música. Música que eu finalmente conheço... não essa porcaria nova que a gente vê por aí. Procurava um livro pra ler, “mas todos são muito felizes”. Ela é doce, doce, mas eu também não a entendo. “O nonsense já é um sentido em si, me ignora” – e essa construção-desconstrução de idéias me deixava zonzo, meio ébrio, espera.

Decidiu estudar os limites do Universo, achei estranho “mas isso também é feliz! É infinito!” – e dei um sorriso bobo. “Infinita é a nossa incapacidade de entender a finitude das coisas”. Ai, meu... pai. Essa menina não tem jeito. Briga com todo mundo, fala coisas soltas... sempre que volta pra casa, ela toca nas flores acidentadas da rua, brinca com as pedras do caminho e sempre se lembra de Drummond. Eu já to perdendo a lógica da coisa, como assim? Agora ela resolveu brincar com mapas: mapas de todos os continentes, dados de oceanos, solos, climas, economia, paralelos, ela gosta de números, apesar de. Passa as páginas sem prender o olhar, engole tudo, imagem som e suor, rios ditaduras IDH minérios. E pára de repente. Suspiro. Aquele sorriso que me dá tanta paz. Ela continua melancólica com uma doce timidez... mas agora eu a entendo. Vou dormir também.

Um comentário:

  1. Chorei. (literária e literalmente)

    Além das mulheres de Klimt merecerem um suspiro e muito respeito, teu texto é formidável, mas eu não queria usar essa palavra, ela parece ensaiada demais. Eu quero só dizer que ele é muito, muito bonito mesmo, faz a gente se encontrar e rir um pouco de si, chorar de beleza, de desabafo, sei lá.

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