sábado, 19 de março de 2011

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A ave solitária cresce e cada vez perco-a menos de vista. Custo a perceber que as suas evoluções são rigorosas. Voa com disciplina, traça uma espiral descendente, que se reduz em direção a um vértice. Esse vértice funde-se com o ponto em que estou deitada, vejo isto com clareza, como se a noção de cone me fosse familiar, funde-se comigo o vértice do cone, o fundo da espiral e pela primeira vez sinto a distancia entre mim e as coisas. Ao mesmo tempo contenho um sobressalto: aquele vôo talvez seja o meu  nome [...] Sinto, no centro do meu corpo, o ponto. Na cicatriz do ventre. Não é uma dor. É um ponto, sim, um ponto, o inicio de um ruído, como se ali um pequeno cálice vibrasse. Fecho os olhos, cruzo as mãos sobre o peito, ouço o rumor das asas, asas imensas, sinto deslocar-se o vento em torno do meu corpo, voarem minha saia curta e meus cabelos, sucede-se um silencio, eu abro os olhos, nenhuma ave me contempla ou voa, nenhum vestígio de vento, nenhum vestígio [...] Começo a rir e as borboletas voam. Minha mãe, chorando, leva-me de volta.

Osman Lins

Quantos sentimentos (e eu grito, exaspero...) 

(.)

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